segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O corpo e sua herança física....

No corpo, não existe nada
que 'devesse ser' de algum jeito.

A questão não está no tamanho,
no formato ou na idade...
Mas em saber se esse corpo sente,
se ele tem um vínculo adequado com o prazer,
com o coração, com a alma,
com o mundo selvagem.

Ele tem alegria, felicidade?
Ele consegue ao seu modo se movimentar, dançar, gingar,
balançar, investir?

É só isso que importa.

Clarissa Pínkola Estés by Heloisa Davino

Contagem regressiva... e é preciso festejar a vida,
Essa incomensurável alegria de estar vivo.
Viva!
Com Carinho,
Heloisa Davino

domingo, 3 de outubro de 2010

Inferno Astral

Ela estava à beira do seu inferno astral.
Ela estava à beira do abismo.
Passava tudo pela sua cabeça. Era um mar de bobagens, crenças, sonhos...
No fundo, ela queria uma praia, ela queria o mar. Ela estava cheia de dúvidas e só Yemanjá poderia ajuda-la.
Ela imaginava que tudo seria diferente, seria um mar de rosas, um mar de féu, de mel. Uma noite estrelada.
Seu mar imaginário era muito salgado, quase azedo. O ralo sujo e profundo da sua alma escoou com o resto do doce que poderia conter ali. Ela estava obcecada, ressentida, amarga, mas ninguém sabia. Ninguém...
Seus dias tinham sido felizes, seu domingo lindo, delicado, no meio da família, dos amigos, ajeitando os últimos detalhes para a sua festa de aniversário. Mas no fundo, no fundo do seu mar havia um vazio. Uma overdose de rejeitos, a caixa de e-mails vazia. Seu mundo interior estava inquieto, medroso, frágil, confuso.
Ela olhava suas fotos, olhava novamente para seus cabelos e não se reconhecia, não sabia mais quem era, o que fazia, o que queria.
Só sabia que havia uma unica chance, uma unica saída: reconhecê-la. Experimentá-la, deixa-la viver, por uma unica vez, se permitir a ser diferente do que era na sua essência. Mudar todo o percurso e deixar aquela onda de loucura permitir uma nova jogada, um novo rumo.
Ela precisava experimentar esse amargo, isso dava um nó na garganta, mas não dava pra chegar aos 40 sem passar por isso. Nada havia sido fácil, não seria agora.
O sonho estava por um triz e não chegava, como se Alice não acordasse, não queria acordar, não podia acordar, o final feliz ainda não tinha chegado, ela não acordaria sem o final feliz. Nunca.
Seria como se jogasse tudo no lixo, tudo fora, ela não podia se dar ao luxo. Era tudo muito especial. Queria ser feliz! E sabia que podia.
Ela estava tremendo. Mas por fora todos continuavam sem imaginar o quanto seus sonhos eram incansáveis, incabíveis, incuráveis. Mas ela não desistia. Não acordou enquanto não conseguiu cortar a cabeça do dragão. Não era do seu feitio.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Na reta...

Há 20 dias dos 40...



quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A cidade nova I

"O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente, chega a Isidora, cidade onde os palácios têm escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo se degeneram em lutas sanguinosas entre os apostadores. Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possuía jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; ele está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações."
Ítalo Calvino

Na minha cidade invisível tudo é aberto, nada é fechado. Os pássaros voam sem medo, sem gaiolas, sem fronteiras. Nela o céu se prevalece azul, infinitamente azul com um beirado rosa. Não há medos, não há sonhos não realizados.

Não há dúvidas, como as de Ítalo. Se há dúvida, encontra-se uma terceira pessoa para tirar a dúvida da primeira e da segunda. Tudo basta. Tudo é objetivo.

Na cidade dos meus sonhos crianças reconhecem pai e mãe nas pessoas que elas desejam. Tomam banho de mangueira como se fosse em cachoeiras. Chupam pirulito sem medo de cáries.

Na cidade dos meus sonhos amantes viram amores, incertezas viram certezas. Não há culpas, não há desculpas. Ninguém se desculpa das culpas, dos traumas, dos dias invisíveis.

Nela passa um rio de emoções onde todas as tristezas vão embora. Não há distorções. Arrependimentos vão embora de um dia para outro e nossas vidas voltam ao normal sem incômodos nos atormentando.

Quem dá a mão e segura forte, segura para sempre, não desgruda. Beijos fortes serão sempre fortes, todos os dias.

Não há catástrofes, não há senhas, não há filas.

Na minha cidade só há flores, pétalas espalhadas coloridas por todos os lados, pessoas que amamos por perto. Sem gafes, sem desencontros. Só há sonhos sem medo de ser sonhados. Sem medo de ser feliz.

domingo, 19 de setembro de 2010

Tornados

O tempo mudou. Garoa, chove um pouquinho, pára. Um ventinho entra pelas frestas da janela... De um dia para outro o tempo mudou. Nublou. Como um clic.
Ou será que o tempo parou? O tempo parou dentro de mim...
Aquele ventinho da janela entra e passa pelo meu peito. Há um suspiro, um gelo, uma sensação diferente. Uma lembrança me vem à cabeça, meu coração bateu forte essa manhã.
Um gosto de amor aparece na minha boca, nas minhas mãos... Aquela tempestade boa dentro de mim. Mas hoje a tempestade extrapolou, trovejou, armou um tornado. Tornados fazem migalhas.

Eu me pergunto inexplicavelmente: - O que é isso? O que farei? O que faremos?

Um tornado de sentidos encurtou a distância entre nós.
Olho para o telefone, peço para tocar, saudades, saudades de algumas horas? Saudades? Amor? Me pergunto de novo: - O que é isso? Como chama? Algum médico cura tornados?

É como se a verdade tivesse se perdido entre nós. A verdade não existe mais. Hoje só existe uma verdade: o tempo não existe hoje. Pode existir amanha, depois, daqui 10 dias. Mas hoje o tempo realmente parou.

Aquela sensação do vento entrando pela fresta da janela me habita. Como se tivesse levado um susto.

Uma sensação boa tomou conta de mim, hoje, há 20 dias dos meus 40.

O inesperado, o tornado, um frio no coração, uma cócega, um grude, um mel, outros sentidos, um novo sabor. Nessa mistura nasce uma fogueira dentro de mim. Pego fogo. Penso: - Não vai embora, volta, pois a nossa única certeza é não sabermos se tornados voltarão amanhã.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Fortuito matinal

Eles tinham apenas cinco dias. Mas achavam que teriam o resto da vida.

Mas não. Não tinham.

Ela ia fazer 40 em poucos dias:

Vou sair, preciso de um ar,
Quero sair, voar sem volta,
quero sair desse dilema,
desse lema,
volta, rema,
revolta?
quero um toque de seda no ar...
o sabor daqueles dias
dias que são noites, não são dias
noites que são dias, não são noites
aquele gosto amargo do seu suór
cheiro vital no meu sofá,
no dia seguinte
uma marca tênue no meu pescoço,
o poder da sua vinda;
eu sou linha rasante dos seus escapes
ilimitados,
vorazes;
fogueira bordada nas minhas colchas
no meio das letras e flores brandas da sofrida Frida.
Vai embora e volta
e me trás de volta
não me deixa viajar,
pois se eu for,
posso nunca mais voltar
dessa busca apaixonante de mim mesma.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

“Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos”

Excêntrica, louca, caótica, perturbada, criativa, madura, melancólica, romântica. Hoje me vi. Me olhei e lá estava eu.

Acenei para meus meus filhos e eles olharam para mim: séria, chata, severa, divertida, matriarcal, solta, louca, amorosa, sincera, sólida. Eu: o chão de meus filhos.
Meu mais velho me olha profundamente, sorri e me diz: - Obrigada mãe, obrigada por você ser você.
Solta uma gargalhada: - Mesmo louca! hahahahahaha

Nessa síntese, esse resultado do meu eu com a mãe deles: a verdade. Veracidade. Fazer o quê? Pensei eu comigo mesma o dia todo... Fazer o quê? Se engula. Invente aquela roupa desuniforme para sair por sua noite sozinha e retire o desacerbado estranho que ficou de ontem.

Lavei os cabelos e mudei o jeito de arrumar... Se sou tudo isso esses cabelos estão precisando ficar diferentes, menos certinhos. Espetei tudo pra cima e fui me reconhecendo. Sou descabelada, ainda por cima descabelada... Putz... Fui pondo gel, pasta, puxando gomos e mais gomos e um 'eu' foi aparecendo no espelho... Hoje quero sair assim, me reconheçam! Podem me olhar à vontade... Ainda por cima quero beber, que me vejam tonta e descabelada. Talvez bela, chic, hippie, mas serei eu.

Todas essas pessoas sou eu!

Tomei banho, coloquei a roupa, pintei os olhos de negro. Me olhei pela última vez no espelho e tranquei a porta do armário.

Sai.

Inspirada, sonhadora, insegura, excessiva e repleta de boas intenções.