sábado, 7 de setembro de 2013

Amigos em comum

"- Jura? Mas de onde vocês se conhecem??
- Eu penso hoje e me perco no pensar. Gaguejo. Digo que faz tanto tempo eu quase nem me lembro. A verdade é que faz tanto tempo, tempo demais, e mesmo assim eu nunca me esqueço." Ana Mangeon

Indepêndencia ou Morte?? Crise!

Crise em nós, brasileiros. Crise no Brasil!
Fomos ou não libertados em 7 de setembro de 1822?

Somos ou não um Brasil independente??

A um país livre!! Sem crises!




sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A minha traição a Baco

Eu queria tanto que deu errado.


Quando eu era menina estudei anos e anos com a mesma turma. Da 1a.a 8a. série, 8 anos.  No meio dela 
tinha um amigo que eu adorava, mas ele era todo desengonçado, por muitas vezes até engraçado, um garoto bem bacana;  mas, claro, que eu gostava mesmo do loiro de olhos claros. Do gato da turma, eu era apaixonada por ele. E assim, fomos namorados, amigos, parceiros, fomos tudo. Essa é poca de escola foi muito boa. Foi uma delícia.

Tempos se passaram, cada um foi prum lado e só agora, depois de vinte e poucos anos, uma parte da turma,  marcou um churrasco. Conseguimos nos rever e, por incrível que pareça, conseguimos nos identificar e por minha surpresa, logo que cheguei, bati o olho e estava lá, ele, não o lindo, mas o agora, ex-desengonçado. Fui que nem uma flecha, o abracei gostoso, forte e não podia ser melhor. Eu já gostava dele desde menina por afinidades mil, mas quando vi que aquele garoto tinha virado um homem alto, forte, bonito, simpático  - e, o melhor, dizendo que estava separado -  uma purpurina caiu  do céu em cima da cabeça dele - igual desenho da Disney - e meu olho brilhou. Batemos papo a tarde inteira, trocamos fones; enfim, reatamos o canal da antiga amizade de juventude.

Uma pulga atrás da orelha ficou em mim. E acho que nele também. 

Facebook, mensagens, indiretas, diretas. Tentamos dois encontros que viraram desencontros. Ontem, consegui vê-lo novamente... E me pergunto, hoje, numa baita crise moral,  inúmeras vezes, porque insisto em fazer algo que não posso: - beber vinho em demasia. Foram uma, duas, três garrafas!! 

Fim da noite, deu errado. Saí do compasso.  Descompassei, descoloquei. Desmedida,  me pergunto, hoje, perdi a chance de ter uma noite e tanto? Perdi uma pessoa e tanto? Ou não??

E assim, percebo, a minha desregrada cabeça me traindo, não Baco. Eu, eu mesma, perco boas chances, as que eu mais gostaria de agarrar. E saio cabisbaixa nessa véspera de 7 de setembro esperando meu grito de liberdade alvorar.

Ainda bem que minha mãe não segue meu blog.






quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Aos 43!

Daqui 33 dias completo 43. Quantos 3! O número 3 sempre esteve comigo. Bel Gurgel também dá 3 na numerologia. Eu e meus irmãos nascemos todos no quarto de número 13 no hospital. Meu irmão mais velho nasceu dia 13 de outubro e meu irmão do meio nasceu dia 13 de dezembro, nos quartos 13. Mas a verdade é que o 3 é um número sincero, é o número da comunicação.

Final 3, 4+3 dão 7. Hummmm preciso falar com minha numeróloga. Mas o importante e que gosto muito é que meu nome inteiro Maria Isabel do Amaral Gurgel dá 1. E o 1 é um sinal maravilhoso, além de eu ter nascido num sábado que também dizem que é um sinal de sorte.

Sorte? Mas o que é ter sorte? Fico eu pensando nessa questão. Sorte é ter filhos saudáveis e lindos? É. Sorte é poder morar numa casa gostosa? É. Sorte é ter bons amigos? Sim, é. Sorte é poder trabalhar naquilo que gosto? Sim. E quantas vezes acordei pensando que minha vida era uma merda, que nada era como queria, quantos pensamentos nos vêm pela cabeça, todos os dias, achando que não temos sorte? Inúmeros, múltiplos e consecutivos desgostos nos passam pela mente dia após dia. Vejo o quanto eu poderia ser muito mais feliz com aquilo que tenho, e não sou. Não sou, pois o ser humano é inadmissível à felicidade. Nunca acha que é, sempre acha que um dia será.

Essa tal felicidade... Quem é ela? 
Há 33 dias de meu aniversário é a pergunta que me cabe:
- Onde está você, Felicidade?

Ela está em mim, em algum lugar que ainda não descobri. Talvez em 2014, 2015 aos 45... Ninguém sabe, mas creio que ela deve existir. Cadê o 3 da comunicação para me salvar?



sábado, 29 de junho de 2013

Iniciante

Na passagem dos 40 para 42 a vida segue seu fluxo surpreendente e louco.
A loucura quase óbvia na vida de um iniciante pós 40 traz a causa da dor, seja ela de amor, trabalho, filhos, país, casa, traz a obra sem fim. Em vez de tijolos e cimento, a massa, o concreto para estabelecer a base,   todas as mudanças constantes e ininterruptas, argamassa pesada. Ah fluxo sem fim, me dê uma causa justa para me manter viva, inerente aos fatos ruins, à crise. A abstinência dos tormentos existe?
O ser humano sempre tão complicado.
Nada está bom, já dizia eu mesma. 
O óbvio é tão chato quanto o inusitado. E me sinto no óbvio. Não há mais a sensação do frescor, do surpreendente. Experimentei da comida e gostei. Mas ela me dá náuseas, dores de estômago. Eu tomo uma colher de bicarbonato todos os dias e a dor não passa. Não engulo direito essa comida vital e acho que, no fundo, nem quero. Quero outra, outro jeito de me estabelecer como gente.
Na insensatez dos casos uma sombra masculina sempre me cerca. Ela poderia ser boa, mas também não é. Porque a sombra não deixa de ser vestígio. Sombra pode ser fantasma também, pode ser mistério. E de mistério para a minha vida pessoal eu não quero mais nada. Eu não quero as dúvidas. E não sinto a verdade esbarrando e me pergunto mais uma vez: - onde estará àquele que virá sem mistério, sem defeito, sem ser sombra?
Mais um dia de labuta interior. Na pirraça do que é e do que parecer ser, aceito um convite. Entro na dúvida, pois sem "bom dia", o dia fica apenas dia, não fica bom. Num salto mortal mudo os lençóis de minha cama e estendo duas bandeiras verdes em cima dela na esperança de uma vida nova. 
Um mutante dentro de mim quebra os clichês sempre. Se isso é bom ou ruim só minha velhice vai me responder.
Só não vou esperar do outro as respostas pras minhas perguntas. As perguntas são minhas. Apenas minhas. Recomeço é a palavra para o dia de hoje. Eu, uma iniciante pós 40, me dou mais uma chance. A chance de ser eu, Bel Gurgel. Que o mundo venha.





quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Vem, filha da puta...

E lá vou eu pros meus 42 anos...
E eu aqui nessa coisa errada...
Nessa agonia imensa desde dos meus 40 anos...
Não quero nada, ninguém...
Vem, porra, vem logo, desperta logo essa melancolia...
nunca vou publicar essa merda...
vai pro inferno...
Vc tem tem esse poder de fazer eu não publicar meus posts...
Seu filha da puta...
Eu vou publicar.
Eu vou mostrar pra todo mundo o covarde que vc é aos meus 42 anos...
Eu vou te ferrar aos meus 42 anos
VOU TE EXPOR MEUS 42 ANOS
Eu vou te ferrar...
nada, vou te amar, filho da puta... eu quero te foder...



segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Help me

Ela revirou tudo. Guarda-roupa, armários, malas velhas, quadros, armarinhos dos banheiros. Tirou tudo, tudo da casa que pudesse lembrar aquele homem.
Pensava que assim não haveria mais lembranças, que estaria tudo enterrado. Jogou fora as meias que ele havia esquecido, o presto-barba, os desenhos do filho, a escultura de soldado, o cheiro, as risadas, os choros, as bebedeiras...
O pior é que com  tudo foi-se a vontade de escrever.  Não havia mais textos. Não havia mais vida ali.  Ele ralou sua auto-estima. A desprezou além do que podia e sua auto-estima foi embora com a reviravolta. Fez um caldo da moça. Ele, o ralador. Rala dor.
Passada uma semana um velho amigo chegou da África e foi visitá-la. Ele era um homem sensível, espírita, quase bruxo. Ela sabia que ele era sensitivo, sentia coisas quando estava perto das pessoas, mas com ela, naquela visita de volta, era a primeira vez que acontecia aquilo: - parece que seu coração foi amassado, eu sinto uma dor no seu coração, como se ele estivesse esmigalhado. Pegou um pedaço de papel e amassou. Vejo seu coração assim. Você teve alguma coisa com alguém? Quem fez isso com você? 
Ela olhou para o amigo com um olhar cabisbaixo e calou-se. Mudou de assunto.
Na hora de ir embora, quase chegando no portão, ele voltou e disse à ela: - Vou ficar no Brasil mais dois meses e vamos dar um jeito naquilo.
Ela o abraçou com os olhos cheios de lágrimas. E assim foi. Todo santo dia ele ligava. Dia após dia ele dizia ao telefone: - Você está se sentindo melhor? Estou meditando todos os dias para você, querida, você sente uma melhora? 
Ela dizia que sim e sentia mesmo. 
Com o tempo conheceu outras pessoas até que chegou um dia - aniversario de 50 anos de uma amiga de infância -  estava num bar - na ala de fumantes - quando chegou um rapaz claro ao seu lado, de cavanhaque já grisalho e falou: - Eu não fumo mas quero fumar um cigarro com você. 
- Imagina só, fumar pra quê? 
- Eu quero - ele disse sorrindo.
Conversaram, fumaram, trocaram telefones. Depois de quinze dias esse mesmo homem também ligava sempre para ela. Eram convites atrás de convites. Todos recusados com desculpas esfarrapadas:
- Não tenho com quem deixar minha filha.
- Estou em reunião até mais tarde.
- Hoje estou muito cansada.
Até que chegou um dia que ela aceitou. Saíram. Ele gostava de beber uísque. Ela o acompanhou. No meio da noite ele olhou bem para ela e disse: - Deixa eu cuidar de você, deixa eu ficar com você? E a beijou. Ela se atrapalhou toda, olhou assustada para ele e automaticamente pegou o celular na bolsa e, lembrou que o número do celular ela não tinha jogado fora naquela reviravolta, ele estava ainda na sua agenda. Com medo de que o homem de cavanhaque se aproximasse mais dela, pegou o celular e passou uma mensagem rapidamente, sem pensar em nada, para ele - o ralador de emoções - duas palavras em inglês, foi o que saiu: - help me. Ela queria ajuda, pedia socorro para não ter que passar por aquilo, ela não queria aquele homem seguro, certo que queria cuidar dela. Um pavor de ser amada por outro. Um medo terrível, uma repulsa e aquele 'help me' era como se ela tivesse escrito: - não me deixe ficar com outro homem novamente, me ajude, me tire das mãos dele. Ela levantou da cadeira do bar e saiu correndo, ele saiu atrás dela a segurou pelo braço e perguntou: - Porquê? Ela disse: - Não consigo, desculpe! Entrou no carro, engatou uma primeira e seguiu para casa sem resposta da mensagem enviada. Nunca havia respostas. Ela sabia. 'Help me' poderia ter mil sentidos às 2:00 da manhã. Mesmo assim, sem respostas. O ralador cultuava a frieza, o sofrimento, o não. Quando chegou em casa para se assegurar que nunca mais faria este tipo de contato inútil deletou o número dele do celular, deletou ele de seus contatos de e-mail, facebook e, agora sim não havia mais nada. Nem um resquício de contato, de números, de nomes, de cor. Ligou para o amigo que havia chegado da África - mesmo de madrugada - e pediu colo. Ele chegou logo em seguida. A colocou deitada na cama e vibrou durante horas cantando cantos xamanicos. O quarto virou templo. Ascendeu velas, passava óleos pela sua testa, mãos e pés. Um exorcismo de amor foi cultuado naquele coração surrado. No final, o amigo passou a mão pelos seus cabelos e disse: - fica com Deus.
Ela dormiu o resto da noite, durante o dia seguinte todo. 
Acordou diferente, mas nada mudava a vontade de permanecer sozinha. Era o ralador ou nada. Sem poder, ela preferia - ainda - o nada.

"Nosso amor tinha pressa, largou o automóvel e saiu caminhando, melancólico, entre motoboys e miragens, crepúsculo cubatanesco a escorrer do nariz, nosso amor era um boi na frente dos carros.


Nosso amor era um atropelo e a gente mal tinha tempo para fazer-lhe um dengo, um cafuné, uma cócega, um bilu-bilu, nosso amor era um tomagushi, um bichinho virtual criado e nascido como uma planta nesta cidade de 11 milhões de habitantes.
Aí nosso amor, puto da vida, bebeu, cheirou cola, acendeu o cachimbo na Cracolândia, perdeu os óculos, as lentes de contato, fez besteira na rua Augusta e quando alcançou o Tietê já nadava na correnteza em cima de um sofá velho cujo estofado denunciava lágrimas e esperas.
Nosso amor não conseguiu dormir direito de ontem para hoje,  zumbizou geral o malaco, perdeu-se como Esperanza, a linda boliviana de Cochabamba, Penélope que tece o interminável manto e nada espera nas fabriquetas de costuras do Bom Retiro.
Nosso amor não tinha norte, bússola ou GPS.
O amor em SP, repito, é como o metrô da Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação. Sinto muito."

Xico Sá




obra do artista Jorge Fonseca


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Unheimlich

Meu carnaval simplificado e fechado. Fiquei entre as alfinetadas dos ‘confetes e serpentinas’ de Nazareth Pacheco. Revi o trabalho dessa artista durante esses dias. Entre outras horas li a autobiografia da Marlene Dietrich há anos desperdiçada na minha prateleira. Fiquei entre essas três mulheres Marlene, Nazareth e eu. Às vezes quatro. As duas primeiras mais presentes que a terceira. Me fantasiei de fantasma. Falei quase nada. Desliguei o cabo do telefone. Li apenas um e-mail. De muito uma volta de barco outro dia, tomei um pouco de sol para tirar aquele branco choco, oco da minha pele ressacada.

Nazareth entre a dor e o êxtase de um mundo que nos estraçalha, esparramando vísceras em orgasmos bizarros num texto da Miriam Chnaiderman. A obra bela, transparente, de um brilho sedutor que dilacera qualquer identidade que queira existir, que queira entrar na vida da artista. ‘Ela’ não quer ninguém, sabe que ninguém a agüentaria com todos seus problemas físicos e psíquicos. Indiretamente se castiga, se mutila através de sua obra. Sabe que não suportaria viver com um ‘outro’ e suas diferenças. E se faz só. Surge em seguida a cama de acrílico rodeada por cortinas de giletes. Tudo dói, corta. Provavelmente ali é sua mesa de auto-dissecação.

Para chegar ao orgasmo, antes, se machuca, a dor deve ser profunda. Ela não o merece, pois não se consente. Quer o quase impossível de se ter. Cobre uma das paredes de seu quarto com imagens de santos expeditos. E num mergulho, nadando de costas no meio das obras de Nazareth, nossos corpos viram campo de batalha num mangue sanguinolento sem sangue. Inumano e profundamente humano.

Num apontamento entre eu, Nazareth e o ‘outro’ - fico feliz quando vejo que ainda é possível que achem outras pessoas por esse mudo afora. Que os encontros felizes aconteçam. Seca, vejo o quanto o meu grau de exigência se faz excelência. ‘Freud mostrou que onde a fúria da destruição é mais cega pode sempre estar presente uma satisfação libidinal’. É o que há de demoníaco em todos nós. O gozo barrado pelo desejo. E eu impotente, fraca.

Valery afirmou sobre Restif: “quem é verdadeiramente livre não é obsceno (...) porque quem é livre está além do bem e do mal – como o é o real”. É nesse jogo que Nazareth nos propõe: - quem goza com o gozo de quem? Aí vem o dilaceramento de sua obra, entre suplícios e torturas, não há apaziguamento possível e a agonia abraça o êxtase e, por conseqüência, me abraçam.

Vem à cabeça Elizabeth Bishop. Outra parva do mundo dos relacionamentos. Dispunha-se toda semana a parar de beber. Não conseguia. Rainha de um escândalo ou mesmo de um pequeno vexame. Depois, inconformada, se fechava em sua casa e não saia de lá enquanto a depressão não a fugia. Enquanto não resolvesse, novamente, parar de beber e assim, fraquejasse, repetidas vezes.

Já Marlene radical. Quente ou fria, morna jamais. Leio suas relações singulares com a vida. Erótica, mas fria. Presunçosa e, não obstante, apaixonada. Viveu como devia, amou como quis. Antifascista irredutível, por perversa ironia do destino era atriz preferida de Hitler. Ofereceram-lhe uma volta triunfante de Hollywood para Berlim, repugnada não aceitou. Seus filmes foram proibidos em toda a Alemanha. Na medida, dando suporte a sua historia, começa a salvar perseguidos políticos. Independente, despachada e incitante.

Entre Nazareth e Marlene: defeitos físicos tortuosos de uma artista plástica dos anos 80 e a beleza mítica da atriz, nascida em 1901. Nesse ínterim quatro dias de carnaval suados, desesperados por inúmeras respostas. Sem saber de nada, sem respostas, acho que posso estar salva vestida de fantasma. Acesso esses dois mundos na tentativa inconsciente de me achar. Percebo que sou um pouco de cada uma delas, uma mistura nada sábia das duas. Das três.

Inerente a outra história, nada me comove. Há meses, quando encontro ‘algo’ durante uma noite, no dia seguinte levanto cedo, pego as chaves do carro e saio. Não há mais nada quando olho para trás, apenas a noite passada. ‘Algo’ que passou despercebido. Esgotaram minhas fantasias. Nessas horas me vem a certeza que estou mesmo entre Nazareth e Marlene, numa rua sem saída, esperando minha hora chegar feito Bishop.

"então que seja um grandioso fracasso, os criticos vão vociferar. Mas prefiro ver vocês em um grandioso fracasso do que em um filme mediocremente ruim".

Sternberg










"Chama-se unheimlich tudo o que deveria permanecer secreto, escondido, e se manifesta". A partir daí, Freud desenvolverá sua interpretação do termo como "recalque" (algo de familiar à vida psíquica e que o processo de recalque transformou em "estranho": "O estranhamento familiar nasce na vida real quando complexos infantis recalcados são reanimados por alguma impressão exterior, ou quando convicções primitivas superadas parecem ser novamente confirmadas", apoiando-se em diversos exemplos, para concluir que esse fenômeno, que se manifesta como sensação de terror ou mal-estar, advém exatamente da perda dos limites entre realidade e imaginário por um sujeito determinado.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

The day

O telefone toca logo cedo, às 6 da manhã no dia 10. Meu Deus quem quer falar comigo nesse horário? Um desumano qualquer. Não, meu irmão do meio, Zézito. Ele acorda cedo e acha que o resto do mundo também acorda.

- Recebeu meu presente via sedex?
- Ah, o que? Ah, tá, recebi...

Segue uma conversa tosca, rápida e sem nexo.

Volto a dormir.

Depois de uma hora, às 7 e pouco, toca de novo, pensei: - Meu Deus porquê? Quem será de novo? Putz, deve ser a mamãe. Atendo.

- Parabéns pra você nessa data querida muitas felicidades, muitos anos de vida...

Uma voz de homem, eu tava com muito sono...

- Samuel?
- Oi Bel, feliiiz aniversário! Ce tá bem? Tudo bem? Eu tenho sonhado contigo consecutivas vezes...
- Acho que to sim, Samuel. São 7 da manhã aqui no Brasil, baby...

Eu não tava entendendo nada... Como acordar pela segunda vez, agora às 7h, com meu ex-marido cantando "parabéns pra você"?

Penso, meu Deus, primeiro o Zézito, agora o Samuel...

Pergunto para ele:
- Cadê sua namorada, Samuel? Já foi trabalhar, né? Porque eu ia ficar muito puta de ver meu namorado cantando "parabéns pra você" para a ex-mulher num telefonema internacional... Ce é louco...
- Bel, to aflito aqui, aqui está um gelo, muito frio. To me sentindo sozinho. Você tá bem mesmo? Meus sonhos não foram bons com você. Fiquei preocupado. Fala a verdade, você está bem? Te mandei um e-mail.
- Samuel, às 7 não sei nem meu nome... mas eu to bem... Não devo morrer nos próximos meses, acho eu... Minha vida tá uma zona, tenho trabalhado feito escrava, mas eu tô bem, as crianças também.
- Lê o e-mail e depois te ligo mais tarde. Mas você vai nascer, Bel, agora, às 7:30h. Te amo, linda.

Ex-marido, sabe tudo, até a hora que você nasceu. Ele disse 'eu te amo'?? Mi Dio, eu to num sonho ou num pesadelo?

Me manda por e-mail uma música que fala:

Sei que me encontro sozinho
Sei também quando me acho
Sei tudo o que você acha
O buraco é mais embaixo
Foi um achado te achar
Perdido acho diacho

Vai entender...

Resolvi levantar e tomar café. Café sem João. Me dei conta que João está indo, aos poucos, embora. Ano que vem, ja foi. Me deu um frio no estômago. Eu e João somos cumplicidade total. Nossa palavra chave é a verdade. É 'poder falar'. Desde pequeno me traz café na cama no dia do meu aniversário. Quem ensinou esse menino ser tão gentil? Eu? Deus? Que honra. A Bahia, este ano, carregou meu rei. Bom sinal.

No final, achei a música linda e postei no meu face pensando em outra pessoa. Uma cadeia de desejos foi surgindo durante a manhã.

Os homens tem mania de enviar músicas difíceis de decifrar. Pelo menos pra mim aquela música de Samuel não fazia sentido algum.

O dia passou. Eu me senti diferente este ano.

Mais tarde outra música, de outra pessoa, essa de cunho importante, de novo difícil de decifrar o sentido exato. Mas ele é indecifrável mesmo. E eu amo o indecifrável e, assim por diante, a coisa toda é completamente, diz aí, diz: indecifrável também!

Andréa, minha assistente de assuntos diversos, aquela que segura a onda quando fico dias afora trabalhando, foi vendo meu dia, seguindo os posts no facebook, quando viu esse: - bom, ele saiu do hospício e tá querendo te levar também e você tá querendo ir!!! Só pode ser.

Ai, ai, eu ria, ria porque meu dia foi bom, generoso. E era a verdade. Andréa é da roça, mas ela saca tudo. Ela sabia que eu iria para qualquer lugar que ele me levasse, até mesmo para o hospício. Hahahahahaha

Ela soltava, quase brava, no meio das minhas gargalhadas: - Ce tá achando bonito?!!!

Mas esse papo é um caso a parte.

Deixa eu terminar minha postagem aqui...

...Telefonemas desde cedo, músicas inéditas, flores, presentes chegando via sedex e motoboy. Publicações uma atrás da outra no face parecia um cassino de palavras. Cassino de amigos. Mensagens via celular de pessoas de países diferentes.

Meus 41 foi uma gama de loucas surpresas regadas, no final, com muita champagne.

My day.

E, abaixo, a tal música, noutra versão, bem feminina, com a sua vasta intenção aqui cifrada para quem ela realmente pertence.


domingo, 9 de outubro de 2011

14

Amanha, dia 10, completo 41. Por um lado me sinto com 14, por outro 82.

O que me intriga é que, fazendo uma pequena pesquisa em meus arquivos pessoais, percebo que o dia 14 vem me acompanhando há meses. Desde 14 de junho. O mesmo número, na sua inversão, dá-se 41. Exatamente a minha idade de amanhã.

Foram 4 longos meses que aprendi e desamprendi. Entendi tudo e não entendi nada. Mas uma única coisa ficou: uma vontade de que, de repente, 14 de outubro vire um outro aniversário. O de amanhã não tem proporção perto desse do dia 14, inventado por mim e meus sonhos, dia 14 seria o dia mais importante de 2011 se ele viesse com uma referencia maior. Maior que o dia 14 será apenas meu próximo aniversário, de 42, do ano seguinte ou talvez o aniversario de meus filhos, dos dias 24 e 9, que somados dão 33.

Dia 14 poderia ou poderá, pois tudo muda, todos os dias, um novo 14, 41 vezes mais significativo, um novo dia e poderíamos começar de novo. A mesma história contada diferente, com outro roteiro, outro formato. Digital? Poderíamos nos reinventar, inúmeras vezes: 14, mais os meus 41, mais as suas primaveras e as de nossos filhos. Isso já dá, aproximadamente, 112 reinvenções, 112 chances de errar!

As palavras e os números, em pleno carnaval do meu inferno astral, me vêm e eu deixo.

seguir as regras do improviso.
evitar as metáforas.
o abc imaginário.
amar em ouro preto.
e a sucessão de fatos
a sucessão de fatos
faz-me respirar as estranhezas
nos olhos.
um vazio separa um reconhecimento.
o amor tem aqui a sua pequena reserva.
a última palavra.
e é abstrato.
platônico?
e existe um protesto.
é amar em ouro preto
com os meus finais tão não-óbvios.
e uma pequena alteração
é frequentada por uma
grande alteração.
e o que existe? o que sucedeu ao morador
na minha criatividade?
como sobrevive um amor não criativo?
eu, bem eu, deixei
deixei não ser
vem uma tempestade de areia
também segue as regras
do seu improviso.
a cómoda situação do resto do mundo
é assinalada
pela cor azul, hoje domingo, eclecticamente misturada
como o romance entre dois números 1 e 4,
que, juntos, dão 14
separados não fazem sentido
ao contrário 41
não é possível.
como é possível?
há um pouco de morte aqui
ou então um pouco de felicidade,
felicidade
coincidências
que só torna mais presente
o seu inverso.
ouro preto é um vírus.
o seu autodesconhecimento
é a minha arte.
o meu desprezo pela
utilidade prévia de todas as coisas.
e sigo as regras do seu improviso.
evito as metáforas.
o abc imaginário.
sei amar em ouro preto.
te provo
conheço qualquer lugar.

domingo, 31 de julho de 2011

Kaputt

Sem inspiração, dois minutos de reflexão me são venenosos.

Sou tão sem jeito com a vida... Nem sei se me ajoelho com propriedade, nem sei se entôo direito um Kyrie. Tarda impotência. Tímida, observo ao meu redor. Outros seguem convictos de viver com sprezzatura. Me impressiono fácil. Sou atraída pelo exímio arqueiro que tem diante dele o alvo.

Nos portões da solidão, ouço uma litania. Oram por mim. Só o amor me sustenta, mão poderosa e braço estendido. O consolo é certo, mas o juízo é difícil. A intuição é suficiente.

Dependendo da perspectiva, não se vê como as atitudes são tingidas de má consciência. Mais de perto, tudo parece uma iniciativa feroz, dirigida a um fim ótimo. Nada mais natural que o aplauso sincero de muitas pessoas. Mais de longe, o fim é ilusão, pois o caminho não leva a nada fundamental. Não é difícil ser engolido por um enorme buraco. Quem tem larga visão é conduzido aos limites do ceticismo. Pode haver uma simples fuga, um sorriso de quem reconhece uma farsa ou o perigo do ressentimento plantado no coração.

Como lidar? Não seja conduzido pelos ouvidos. Não se impressione. Seja manso como um cordeiro, sagaz como uma serpente. Cheire os fatos antes de engolir belas idéias. Estoque a sua dor no patrimônio da experiência.

Eu me equilibro em todos os pontos. Exceto um. Meu segredo. Fonte de minha excentricidade. Dentro do conjunto, passo despercebida. Ao olhar mais amigo, talvez eu seja vista em contínuo abalo.

"Se eu conhecesse a mim mesmo, desatava a fugir." (Goethe)

TPM brava!



sábado, 30 de julho de 2011

Mudança

É difícil saber por onde começar quando se trata de mudança. Como todo mundo já sabe, arrumar as malas comigo é um filme de terror. Mudar de casa um estrondo. Qualquer mudança é sempre chata e repentina.

Uma noite, um dia, 12 horas, tudo pode mudar num piscar de olhos. Num encontro. Numa virada. Numa sentada de mesa. Numa viagem.

Eu queria ter explicação para isso. Eu queria poder ter uma palavra-chave. E a palavra deve ser resgate.

Quando você se dá a chance de um resgate próprio e tenta começar a dar respostas as suas perguntas diárias. Sem depender do outro. Hoje, melhor dia impossível: 30 de julho. Vem à tona todas suas decisões importantes. Hoje, a melhor lua nova do ano, te dá de presente a chance do novo. Para onde você quer ir? Com quem? Como? Porquê? Mil perguntas vem e voltam e destoam. Fazem e desfazem da sua sutileza.

O telefone toca, caixa de e-mail cheia, mensagens... Meu Deus, o que está acontecendo? Eu me pergunto latente. Isso é um jogo mesmo?

Como seria pôr sua vida em quatro malas grandes, largar seu emprego, vender tudo o que puder vender, fechar a porta de seu apartamento, dizer 'até mais' e pegar um avião rumo ao desconhecido? Claro que esse desconhecido é estranho até um certo limite, pois a gente sempre sabe um pouco sobre o lugar que vamos iniciar vida nova.

Eu me sinto, assim, num outro sentido. É como se eu estivesse já na sala de embarque. Eufórica esperando chamarem por meu nome pois eu poderia estar atrasada para o voo, como sei que estava. Saiu correndo e não perco o avião. Nunca.

Nessa viagem sinto que tudo melhora quando a gente entende que nossas 'cidades' nunca poderão ser vistas de um modo objetivo, concreto, e nosso entendimento sobre elas tem a ver com nossos sentimentos no momento da experiência, com nossas escolhas pessoais e, principalmente, com tudo aquilo que trouxemos na bagagem.

Mesmo a 10 graus, o dia parece mais quente.

Mas e aí, pronta Lola? Não, não, senão, para mim, não existe amanhã. Nômade.


"Por que escrevo então? Porque, pregador que eu sou da renúncia, não aprendi ainda a executá-la plenamente. Não aprendi a abdicar da tendência para o verso e a prosa. Tenho de escrever como cumprindo um castigo. E o maior castigo é o de saber que o que escrevo resulta inteiramente fútil, falhado e incerto".

terça-feira, 26 de julho de 2011

Cassino

Insônia, insânia, inserta.
Preciso dos frutos vermelhos e maduros das árvores
Preciso do mar.
Nada tanto faz.
É como se em um piscar de olhos eu pudesse fugir.
Quero mar, livros, fogueira a noite para me justificar. Ilha.
Para ser ou deixar de ser.
Encurtando distâncias e mais distâncias, alguém olhou do lado e descobriu a verdade,
o longe estava perto, o perto estava longe.
Eu gosto deste jogo.




domingo, 3 de julho de 2011

Pré-vírus

Oh alma danada!
Quando menos espero ela cai e eu fico de cama!
É uma questão que vai além do vírus implantado no escritório, por toda a equipe, a semana passada. Antes de abrir uma grande exposição, antes de grandes acontecimentos, antes de reuniões importantes, antes de decidir algo fatídico, minha imunidade abaixa e eu despenco na cama. Me lembro o ano passado, uma semana antes de abrirmos uma sequencia de eventos, tive uma crise de rins. Saulo, recém motorista, me salvou levando-me para o hospital, dirigindo nervoso, comigo aos prantos. Nada passava a dor. Olhei para cara do médico plantonista, peguei no braço dele: - Preciso ficar de pé até amanhã cedo, tenho muito trabalho ainda. Se vira! Dez minutos depois, estava ele, com uma seringa de morfina. Puft! Ah que noite louca... Me lembro daquele quarto rodando, eu longe, como se fosse hoje.

Mônica e Saulo me olhavam com cara: - Ah nega ta mal, não vai dar conta... Na manhã seguinte me levaram pra casa. Armei uma reunião geral dentro do meu quarto, deitada. E assim, a vida vai, tudo acontece, saímos do habitual e o que fazemos sempre acontece com uma pitada de energia vital. E, Sofia, é igual. Depois de papos sérios, ou mesmo depois de um ataque de nervos com ela, a pequena sempre aparece em estado febril. Recompomos nossos emocionais através de estados enfermos.

Cair de cama é como se fosse juntar meus pedaços e idealizar tudo novamente. Faz parte da minha série 'recomeços'. Não é recomeçar um trabalho, uma relação, não, não... É recomeçar eu mesma, idealizar meu lado mais ridículo, acabar de ler os livros que preciso, objetivar meus focos mais inerentes. Me achando dentro do meu delírio intelectual. 48 horas inclusa, alguns remedinhos e boas leituras. Amanhã sou outra!


sábado, 25 de junho de 2011

Nada está perdido

Estava indo para BH, tudo muito corrido, resolvi parar no escritório. Sentei na mesa, olhei os e-mails, entrei no face. Tava lá: - Péssima notícia, vamos adiar a viagem por causa de trabalho. Primeiro eu achei que fosse brincadeira. Perguntei, ele respondeu que não era. Me deu um frio na barriga porque já tínhamos pensado em tudo, pelo menos eu tinha, afinal eu era a anfitriã: horários, onde ir, como ir, porque ir... Poderia ter acabado tudo ali, eu ter pensado: - bom, não vem, tá ok, vou fazer outra coisa, vou pegar as crianças e ir com elas para a pousada já reservada. Mas eu já havia armado o circo: Sofia ia viajar com a tia. João ia trabalhar. Dispensei reuniões, mandei todo mundo curtir o feriadão e esse conjunto de coisas me deu um certo vazio. Senti um certo descaso, reli as mensagens e vi que não era isso. Mas eu comigo mesma comecei a fazer outras leituras do acontecido, leituras apenas minhas e me deu um certo nó no estômago.

Fim de tarde fui tomar um vinho, encontrei uma amiga, sentamos, bebemos, fazia tempo que não encontrávamos, bebemos inúmeras taças, no final 3 garrafas. Falamos de arte, de encontros, desencontros. No meio resolvi mandar uma mensagem pra ele: - acho que mereço um telefonema, ao menos. Tudo via mensagem no chat, não dava mais, eu queria escutar a voz. Ele ligou, foi bom. Mais tarde, meus amigos, donos do bar, já me olharam com cara de 'vamos te levar pra casa'. 'Bebo para afogar as mágoas. Mas as danadas aprenderam a nadar.'

Cheguei em casa, não tinha horário mais para acordar, ele não ia chegar às 07:45h da manha e eu não ia mais buscá-lo. Não tinha mais pressa para nada. Uma pequena vantagem: malas para arrumar, que nem eu, tão pouco a Valquíria - minha empregada - gostamos de fazer, ela diz que a deixo louca e eu garanto que minha praticidade para esse exercício é zero. Não precisava mais de make up, de pensar numa roupa, não tinha mais frio na barriga. O furor de um romance novo que tinha arrematado toda a minha atenção durante a semana terminara em 4 linhas no facebook.

Eu olhava para a cama, ela olhava para mim. A mala vazia. Ficou estranho. Dormi.

Acordei às 6 da manhã, talvez achando ainda que precisasse acordar. Pobre ilusão. Abri os olhos e um sintoma péssimo me arrepiou todos os pêlos. Deu 07:45h eu surtei quase quieta. Abri o computador postei umas coisinhas e mandei uma mensagem, queria falar: - tô puta! Mas meu lado civil se superou. Pensei: - esse cara tá achando que a minha semana é fácil? Que eu to disponível, assim? Me xinguei: - submissa! Levantei, a Valquíria olhou pra minha cara: - Você não vai mais viajar? - Não, não vou. Pensei bem e falei: - Quer dizer, eu vou sim, me ajuda a arrumar a mala, mas vai ser uma mochila, Valquíria, não precisa ficar nervosa. - E coloca o que, Bel? - Coloca 2 camisetas herings, minhas havaianas e o resto eu mesma faço. Sai da cozinha, fui pro quarto, abri o guarda-roupa e peguei 2 calças jeans das mais fudidas, uma jaqueta jeans de 1987, uma toalha de banho, uma blusa de lã, 2 calcinhas. Nem sei como mas ainda coloquei desodorante e escova de dente. Me vesti igual, tão despojada quanto meu filho João, que aos seus 17 anos é um despojamento total e absurdo. Enfiei um tênis, um chapéu, peguei as chaves do carro e Valquíria ficou me olhando, perguntou quando eu voltava: - talvez amanhã, talvez depois de amanhã, sei lá... Não tenho compromisso com nada. Saí.

Pensei, bom, pra onde? Tiradentes? Lavras Novas? Macacos? Serra do Cipó? Uma amiga de Lavras Novas me liga: - vem pra cá. Mal sabia ela que, no combinado, passaríamos 2 dias em Lavras Novas antes de chegar em Ouro Preto. Falei: - Lú, obrigada querida, mais Lavras Novas hoje não vai dar...

Peguei a estrada sentido BH e fui, parei, tomei café num ponto que gosto, mas eu tava muito estranha, muito. Eu tava levitando, triste, puta, frustrada sim. Eu tinha percebido que eu tinha sido tomada por um susto, um golpe de mestre sem ter sido golpe. O problema não era o trabalho dele ou tudo que tinha acontecido sem a culpa de ninguém, o problema era porque sem saber porquê eu queria aquele momento com ele, aqueles dias de feriado, como há um bom tempo eu não queria nada com ninguém. Que os próximos 4 dias seriam alone, alone, alone... Eu não queria outro alguém e desliguei o celular.

Chegando em BH pensei em ver uns cds, comprar um som novo. Entrei no shopping. Deixei o chapéu dentro do carro. Calças jeans rasgadas, meu nick preto quase cinza, uma camiseta branca esgarçada, meus óculos enormes intitulados 'carla camurati' e uma cara de 'over' de assustar qualquer criancinha. Mas, por incrível que pareça, fui surpreendida por inúmeros olhares. Descobri que o despojamento fascina. Sem fome, parei para tomar outro café, um cara parou do meu lado, eu vi que ele ia me perguntar alguma coisa, enfiei o café guela abaixo e sai andando. Eu não queria ouvir nada. Sem disposição, entrei na FNAC. Escolhendo CDs perguntei o preço de um à vendedora. Ela olhou para mim e puxou papo: - Vc não é mineira, é? - Não, sou paulista. - Vc veio para o feriado? - Vim, vim sim (inventei) - Ce tá indo pra onde? - Vou ficar num hotelzinho em Ouro Preto - Puxa, interessante, que hotel? - Nem me lembro o nome, bem no centro. - De repente a gente poderia se encontrar em Ouro Preto... - Claro, claro, a gente se cruza por lá, obrigada. E sai andando, sem ao menos olhar para trás. Sem preconceitos, numa boa, ja fui cantada por mulheres, mas naquele momento eu era apenas para mim mesma, eu e minhas neuras, nada mais. Sem ouvir ninguem, sem parar para pensar. Eu não era eu, eu não estava alí.

Segui viagem e adorei ter saído do shopping. As mulheres num momento de crise precisam sempre comprar alguma coisa, incrível, que loucura! Eu não sai do protocolo.

Lembrei de minha amiga que mora na Serra do Cipó, liguei pra ela, pedi arrego, avisei que estava chegando e ela gostou. Cheguei lá com cara de boba, mas já conformada. Bebemos champagne, conversamos, rimos, brincamos com Caio, o neto ainda bebê, lindo.

Acordei no dia seguinte outra, sem sustos, tranquila e feliz. Tudo passa, dor passa, agonias passageiras. A noite falei com ele via chat, rimos e já combinamos outra viagem. 'Perdido o imperdível' - palavras dele - vamos reachar o perdido. Why not? Why yes, baby. Desencontros perdidos, encontros imperdíveis mas dentro de um diálogo honesto.

p.s. "isto não é um cachimbo, é a pintura de um cachimbo."

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Aeroplano

Ascendi uma vela de sete dias a Santo Antônio. Pensando num casamento, mas um casamento diferente.

Não consigo dormir. Minha cabeça está cheia. Pensei tanto o dia todo, pensei levando Sofia para o piano, para a escola, no supermercado. Hoje foi um dia aparentemente comum, só aparentemente. No fundo minha cabeça ecoava textos, sons durante o supermercado. Cada cena que via, pensava num possível pressagio. Estava traçando planos, inventando histórias. Recebi tantas informações que, meus ouvidos soavam coisas que eu nem esperava, os pensamentos vinham feito flechas. Vinham outras soluções, talvez eu pudesse ou queria ser outra ali ou lá: uma dona de casa qualquer, uma mãe de familia, talvez eu quisesse até mesmo me apaixonar. Mas não há tempo. Tempo pra ser nada a não ser isso que sou agora.

A noite baixou e vim para este canto. Quando preciso escrever eu venho pra cá. Escrevo sem medo. Pode ser o que for, aqui nao preciso estar atenta a nada. Meu vulcão em erupção. Meus cigarros seguidos. O tal processo criativo? Talvez.

Talvez por eu ter nascido mulher, eu pudesse me manter mãe, sem estar ali naquele momento. Dona de casa sem estar pensando na casa. Minha cabeça tinha apenas um objetivo. Um desastre entre identidade e linguagem. Uma luta pelo poder interpretativo. Um achado insuperável. Chegar num senso comum, adversa aos talentos femininos e ao gosto dos intelectuais. Eu precisava ser três. Ter mais duas de mim para conseguir fazer tudo. Nestes dias intensos que passei, descobri também que uma seqüência de coincidências aconteceram, as quais não são coincidências, e sim destino. Me apeguei aos detalhes, em lembrancas e tudo se fez verdade.

Mais do que um investimento pessoal, um investimento em que eu apostava num conjunto de fatos que sabia que me levaria para algo que estava procurando. Mas precisava de tempo e ambiente para isso. Eu precisava de mais malícia, ser menos influenciada para decidir questão por questão.

E cá estou eu, tentando... retomando. Retomar, tornar a tomar. O espanto e a fascinação por esse ser desconhecido que era eu mesma tentando romper com o tempo. Sentir que você tem um canal de expressão é um privilégio. Aos meus 40 aceitando os meus 20 anos passados. Minha vida e essa poesia. Sim, poesia.

AQUARELA

Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,

o mundo parece que nasceu agora,

mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,

talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas

pra namorar o sol, garotos jogam bola.

A baía arfa, esperando repórteres...

Homens distraídos atropelam automóveis,

acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,

meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,

estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos

saídos do banho e pensam longamente na forma

do vestido de noiva: que pena não ter decote!

Arrastarão solenemente a cauda do vestido

até a alcova toda azul, que finura!

A noite grande encherá o espaço

e os corpos decotados se multiplicarão em outros.

Murilo Mendes

Eu, comigo mesma, na tentativa da expressão, sem nada mais. O que está agora em jogo é a construção da legitimidade num pouso não tão manso, mas gostoso e sem volta.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Eu e Krajcberg

Hoje, segunda-feira, chego em casa depois de um dia exaustivo e fico pensando, recalculando - fazendo contas mesmo - dos meus modos, das minhas vontades, pensamentos... Presumo que, a cada dia mais, tenho sentido menos vontade de me comunicar com os homens e com o mundo.

Olho para o motorista de táxi e peço que faça tal percurso, ele faz outro. Pago a conta do cartão de crédito, o banco vai lá e paga de novo. Ligo para a central de cartões e digo: - olha, um momento, minha secretaria está dando a última verificada aqui pra ver se eu perdi mesmo o cartão, um minuto, por favor, ah ela achou! Não preciso que cancele o cartão, muito obrigada. Vou usar o cartão hoje, cancelado.

Fora as questões emocionais. Ou o cara liga toda hora, todo dia, incansavelmente, que é muito chato, grotesco. Ou quando você supõe que poderia ter achado alguém inteligente e ideal, o cara demora 3 a 4 dias para te ligar de volta, quando liga, depois de uma noite fabulosa. Não há flores, telefonemas, mensagens, nada. Acaba a vontade, o sonho do dia seguinte e também fica chato e quase abusivo.

Todas as dúvidas se juntam. Uma a uma.

Krajcberg se cansou de tudo isso. Dos bancos, da neurose burocrática da cidade, dos homens, dos medíocres, do amor. Ele quis viver uma vida só, ele e a sua arte e conseguiu destaque ainda nisso. Um gênio!

Eu o invejo - mas uma inveja boa - há cada dia que passa, há cada pessoa que conheço e que tenho que conversar e conviver. E assim me sinto, com o passar do tempo, disposta a ficar mais quieta, mais neutra e sozinha, pois não tenho suportado os diversos ângulos que as pessoas conduzem uma série de segmentos. É uma seqüência destoada que enche a alma de preguiça e você fica se perguntando quem é o mais tolo (?).

Krajcberg coloca que o dia mais feliz da sua semana é o domingo, pois é o dia que se sente mais sozinho. Será que isso é um sonho infeliz ou será que a felicidade está realmente aí, nesse ponto de confinamento e nitidez? Você admite que não aceita as imperfeições humanas e o mundo se abre para você? Fica a pergunta, pois nunca irei a Nova Viçosa - BA, perguntar ao ilustre artista: - a solidão é o melhor remédio para nós, pobre mortais perfeccionistas e obcecados com uma realidade que não existe? Seria uma grande bobagem, quase um trocadilho.

sábado, 16 de abril de 2011

Único

solidão
solitude
sozinho
inho
ninho
sinto
linho
lindo
vindo
indo
ouvindo
sorrindo
rindo
sorvido
vinho
consigo

terça-feira, 5 de abril de 2011

Escolhas

Não gosto de me sentir normal. Ainda bem.

Mas quando extrapolo, me sinto um tanto diferente no dia seguinte, tão, que eu acho que algumas pessoas ficam com um certo receio, creio eu.

Meu dia a dia super normal, rotineiro: filhos, trabalho, depois a casa, a empregada (tô sem paciência, por sinal), amigos, reuniões, meus rituais frenéticos e os não frenéticos. Minha natação que eu adoro. Hoje tem. Quando eu nado parece que é a última coisa que estou fazendo, me vem um turbilhão de coisas pela cabeça. Saiu mais criativa da piscina. É incrível. Como se estivesse numa competição comigo mesma. Até onde posso chegar?

O blog é uma brincadeira, um jeito de pôr pra fora, uma exposição própria e imprópria também. Um certo receio nas primeiras postagens me afligia... Escrever na primeira pessoa me dava um 'trem' esquisito... Um erro de português e pronto, todo mundo vê. Os e-mails são os mais engraçados via o blog: - Quem é tal pessoa? Como é? Você fez isso mesmo? Como ele chama? Onde você estava? Todos acreditam que as postagens são reais, que todos os fatos são verídicos? E se não forem? Isso não tem a mínima importância. Ou tem pra você? O negócio é que essa globalidade é fatal e sou do grupo que não tem como fugir dela.

Assim nos perdemos, nos encontramos, nos fixamos em algo, deixamos de ser. Somos ou não somos? Falamos tudo ou nos calamos? Tomo mais uma taça? Sim, porque não? Pra não soltar nenhuma besteira? Independente, vacinada, nada domada. E pronto. Gostou, gostou. Não gostou, não há problema.

São as nossas escolhas. Todos os dias precisamos fazê-las. Toda hora. A vida não passa de um processo de múltiplas escolhas, consecutivas - e de trocas eternas - a minha, ultimamente, tem sido a do trabalho e do silêncio. 45 g por dia será que dão?



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Crise no cinema

Em plena crise dos 40 me senti nesta semana. Só hoje fiquei melhor com a história, saiu a inhaca e consegui escrever. Também estava cheia de pendências pra resolver, não mais importantes, mas inevitáveis.

Na terça-feira estava conversando com um amigo cineasta via web, sobre o cinema daqui de Ouro Preto: propostas, vontades, sonhos... Tava ótimo, sempre é ótimo, fim da primeira garrafa de vinho, depois de nadar 500 metros na minha aula de natação, meu corpo quase levitando, uma pergunta pairou pelo ar: - você assistiu meu último filme?

Eu não tenho papas na língua com ele, falo tudo, me conhece desde garota. Ao contrário disso, chego a ser sem vergonha, me sinto por demais à vontade para falar, reclamar, fazer comentários sórdidos, sem nenhum problema.

Depois de uma garrafa de vinho, eu já fico um pouco mais confusa do que já sou normalmente e, na realidade, eu sabia que eu havia assistido o filme. Quer dizer, que eu havia tentado assistir. Tentado não por que o filme é ruim, de espécie alguma! Aliás, vi tudo do André e adoro. Há 20 anos tenho o poster do lançamento de um dos seus filmes na França emoldurado no meu escritório. O problema todo era que eu havia visto o filme sim, mas não tinha... Eu tinha ido ao cinema, pois estamos com problemas no cinema de Ouro Preto há anos, então eu vou ao cinema em Belo Horizonte, sempre que posso. Mas minha vida é agitada, quando entro no cinema, me sinto tão bem, coloco que é um momento tão meu, para mim, que relaxo. Que quando me vejo, estou dormindo. Já aconteceu isso inúmeras vezes. Já dormi no teatro! Na última apresentação do Grupo Corpo, puta agitação, eu e Natália no Palácio das Artes, eu queria muito ver, meus olhos piscavam, dormi. Existem dias que meu cansaço é fatídico! Pode ser Fellini, Bertolucci, Almodóvar, não importa a obra, importa minha cabeça, meu corpo.

Sei que me enrolei toda, pois eu não queria falar, mas eu ia falar como do filme? Eu devia era ter falado que não tinha visto. Seria muito mais fácil. Mas o vinho, eu, minha sinceridade tola... Era meu amigo, não o diretor do filme, com quem eu estava conversando. Não, não, era o diretor... Senti uma energia caótica no ar. Como um papo virtual pode trazer energias infames? Ou será que eu me sentia ridícula ao extremo?

Sei lá, só sei que ele se despediu em seguida e desconectou.

Eu escrevi mais meia dúzias de bobagens tentando me desculpar. Me desculpar do que? Uma palavra a mais e mais ruim ficava. Resolvi ir dormir. No dia seguinte, ele respondeu:

- Na boa Bel, não se preocupe. Achei ótimo vc ter confessado que dormiu, muito melhor que a história de um dvd ou outra coisa vaga. Não fico chateado com a maneira q as pessoas veem meus filmes. São tantas pessoas e acabam vendo de uma forma tão diferente, não tem problema nenhum. Beijo.

Acho que a resposta pode ter sido sincera sim, sem ironias... Talvez a semana que vem eu confirme isso, pois agora faço questão de tratar do final da história deste filme pessoalmente. O virtual pode ser uma arma boa para reencontrar amigos, conversas de trabalho, beber com um amigo quando está sozinha em casa e querer uma companhia agradável... Há mil formatos, mas nada como o real para esses desentendimentos bobos, mas que, às vezes, fazem você se sentir como se estivesse dentro de um liquidificador.